José Oiticica. Publicado no jornal Ação Direta em 1929. Republicado no zine Contra o Sectarismo, à venda na Editora Monstro dos Mares.
O verdadeiro anarquista, penso eu, aquele que se libertou totalmente do preconceito sectarista, colabora em todos os grupos, atua em qualquer tendência. Mais ainda, coopera com os não-anarquistas onde quer que a ação deles incremente a oposição revolucionária.
Assim,
- é anticlerical com os anticlericais;
- é democrático na defesa dos princípios liberais contra os reacionários;
- está com os bolchevistas, sempre que estes reivindiquem direitos;
- reforça a ala antimilitarista, ainda que os antimilitaristas sejam burgueses;
- colabora com a escola moderna racionalista, conquanto não seja reformista;
- anima os teósofos na propaganda fraternalista;
- [anima] os vegetarianos na extirpação dos vícios;
- [anima] o próprio Estado Liberal na sua luta contra o imperialismo vaticanista.
Não proceder assim, seria confirnar-se ao sectarismo e negar, nos atos, a doutrina anarquista, essencialmente anti-sectária.
Todos os homens não podem ver as coisas do mesmo modo, nem resolver os problemas pelo mesmo processo. [...] Seja, pois, cada tendência livre na execução do seu modo de entender a solução [para a transformação social]. Todas as águas afluentes irão dar na mesma foz.
Pergunta-se:
- Nesse conceito de "verdadeiro anarquista", existe espaço para o boicote?
- Devido os boicotadores se recusarem a "colaborar em todos os grupos", poderiam eles ser rotulados de sectários, e por isso, de "falsos anarquistas"?
- Um anarquista rotular outros anarquistas como "falsos anarquistas", por si só, não seria uma demonstração de sectarismo, por não reconhecer que "seja cada tendência livre na execução do seu modo de entender a solução [para a trnasformação social]"?
- Consequentemente, a tese do autor não possui em si mesma uma contradição?
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